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Muitos irão olhar para estas conclusões do Facebook como uma coisa óbvia, que já se sabia, mas esta é a primeira vez que a empresa liderada por Zuckerberg coloca publicamente por escrito o estado a que a Internet chegou com a divulgação de propaganda com capacidade de influenciar as pessoas. A título de esclarecimento prévio, o Faktual apenas publica este artigo hoje pois tem estado a aguardar por uma confirmação oficial do Facebook sobre a veracidade do documento.

Urelatório da equipa de segurança do Facebook tornado agora público, e revelado pelos media internacionais, mostra que a rede social suspendeu cerca de 30 mil contas falsas na véspera das eleições em França. Isto porque, de acordo com o departamento de segurança do Facebook, se tratavam de contas criadas com o único objetivo de fazer propaganda.

“O Facebook é um lugar para as pessoas comunicarem e interagirem de forma autêntica, incluindo em torno de assuntos políticos. Se as vozes legítimas são abafadas pelas contas falsas, as conversas autênticas tornam-se muito difíceis. A abordagem atual do Facebook para assegurar a integridade das contas foca-se na autenticidade das contas em questão e nos seus comportamentos, e não no conteúdo criado”, pode ler-se no documento.

A grande questão que se coloca agora é: quem define o que é propaganda ou que causas podem ou não ser difundidas e ampliadas através do Facebook?

A rede social revela que implementou software com capacidade de identificar e agir sobre estas contas falsas através do reconhecimento de padrões típicos como a publicação de posts repetidos em diversas contas ou disparidades aberrantes ao nível do volume de conteúdo criado.

As dúvidas sobre a liberdade de informação mantêm-se e tornam-se cada vez mais complexas, na medida em que o negócio da rede social assenta em privilegiar os posts pagos.

Mas, tal como o mesmo relatório indica, e ao contrário daquilo que se pensava, não são bots (sistemas automáticos) a criar e a gerir estas contas “falsas”. A maioria das estratégias é levada a cabo por grupos organizados de pessoas.

“Há alguma discussão pública que refere que os falsos amplificadores são exclusivamente “bots sociais”, o que sugere automação. No caso do Facebook, observamos que a maioria das amplificações falsas no contexto de operações de informação não é conduzida por processos automatizados, mas por pessoas coordenadas que se dedicam a operar contas falsas”. Ou seja, de acordo com este relatório, o Facebook confirma aquilo que já há muito se tornou notícia: que existem grupos de pessoas organizadas e que são pagas para criar e amplificar informações com interesses diversos, muitas vezes falsos, através da rede social. Tudo com o objetivo de moldar opiniões.

E explicam: “Observámos muitas ações de operadores de contas falsas que só poderiam ser realizadas por pessoas com habilidades linguísticas e um conhecimento básico da situação política nos países-alvo, sugerindo um maior nível de coordenação e premeditação”.

Mais uma vez, surgem as questões relativamente a quem define o que é verdade ou mentira, o que deve ser ou não eliminado, que informação deve ou não chegar às pessoas. Na mesma altura em que se celebra o dia Mudial da Liberdade de Imprensa, os sistemas automáticos, programados através de software, do algoritmo que o Facebook vai afinando, decidem o que queremos ver. Mas, com que critérios?

“Definimos operações de informação, o desafio no centro deste documento, como ações tomadas por atores organizados (governos ou atores não-estatais) para distorcer o sentimento político interno ou externo, frequentemente para alcançar um resultado estratégico e / ou geopolítico. Estas operações podem usar uma combinação de métodos, tais como notícias falsas, desinformação, ou redes de contas falsas destinadas a manipular a opinião pública (referimo-nos a estes como “falsos amplificadores”)”, pode ler-se no relatório do Facebook.

O objetivo da divulgação desta propaganda, segundo o Facebook, passa por tentar desacreditar instituições políticas, promover ou denegrir uma causa específica ou espalhar simplesmente a confusão sobre uma determinada matéria. Mais uma afirmação que reforça a forte influência que a rede social assume e, no fundo, a responsabilidade pela amplificação das notícias falsas ou factos alternativos.

É preciso recordar que em política esta estratégia propagandística existe há séculos e conseguiu sempre cumprir, pelo menos em parte, os seus objetivos. Nem que seja plantar a dúvida na cabeça das pessoas. Sem dar conta disso, os cidadãos acabam por se unir em torno de um tema, não porque acreditam nele mas porque foram condicionados por determinadas informações falsas ou verdadeiras.

Exemplo de um post falso no Facebook
Exemplo de um post falso no Facebook

As contas dos falsos amplificadores manifestam-se de forma diferente à volta do globo e mesmo dentro das mesmas geografias. Em alguns casos, grupos dedicados, profissionais, tentam influenciar as opiniões políticas nas redes sociais através de um grande número de contas falsas que são usadas para partilhar e interagir com grandes volumes de conteúdo. Noutros casos, as redes podem envolver comportamento por um número menor de contas cuidadosamente curadas que exibem características autênticas com perfis bem definidos.

Um olhar mais atento às timelines de qualquer conta de Facebook permite identificar algumas destas contas, pessoas que, de forma constante, publicam posts com afirmações que tendem em determinada direção política e com o intuito, bem trabalhado, de influenciar a opinião de todos os que leem esse post.

Graças à estratégia premeditada do grupo organizado, o volume de interações levadas a cabo com contas falsas, fazem com que o algoritmo do Facebook privilegie estes posts de forma a torná-los amplamente divulgados.

É aqui que o Facebook pretende reforçar a sua ação de monitorização e, para tal, dá mesmo um exemplo de um desses posts.

E qual a aparência de uma falsa amplificação? O Facebook responde:

  • Criação de contas falsas, por vezes em massa;
  • Partilha coordenada de conteúdo e de forma repetida, posts publicados de forma muito rápida em múltiplos perfis (ou seja, no seu perfil ou em diversos grupos em simultâneo);
  • Comentários repetidos e coordenados, alguns deles podem ter uma natureza de ameaça;
  • Reações e gostos coordenados;
  • Criação de grupos “astraturf”8. Estes grupos podem inicialmente ser alimentados por contas falsas mas podem tornar-se autossustentáveis à medida que outros perfis se tornam participantes;
  • Criação de grupos ou páginas de Facebook com o principal objetivo de disseminar notícias ou títulos sensacionalistas ou altamente tendenciosos, geralmente distorcendo factos para encaixar na narrativa. Por vezes estas páginas incluem conteúdo legítimo e nada relacionado, ostensivamente para desviar as atenções dos seus reais propósitos;
  • Criação de memes inflamatórios ou por vezes racistas , ou fotos e vídeos manipulados.

O Facebook assegura que vai continuar a trabalhar para “combater” estas tentativas de falsas amplificações e, apesar de fazer referência às recentes eleições dos Estados Unidos, onde foram detectadas contas falsas que serviram para divulgar os “emails roubados” através de outras fontes, recusam qualquer insinuação com os resultados finais.

“Importa enfatizar que este exemplo (eleições dos EUA) compromete apenas uma parte da totalidade das atividades monitorizadas e endereçadas pela nossa organização durante este período (eleitoral); no entanto, os nossos dados não contradizem a atribuição providenciada pelo Diretor Nacional de Inteligência dos Estados Unidos no relatórios datado de 6 de janeiro de 2017” (Relatório sobre os emails e as ligações e influências Russas nas eleições norte americanas), referem os autores do documento.

As dúvidas sobre a liberdade de informação mantêm-se e tornam-se, cada vez mais complexas, à medida que o negócio da rede social assenta em privilegiar os posts pagos, ou através do algoritmo que define aquilo que é mostrado aos utilizadores. Que define aquilo que cada um dos utilizadores “quer” ver.

O ritmo e hábitos de vida que as pessoas assumiram passam pela timeline do Facebook. Se estiver um dia sem olhar para o Facebook dificilmente uma pessoa irá conseguir emitir uma opinião sobre os acontecimentos do dia. Mas, e aquele que esteve o dia todo a fazer scroll no seu perfil? Vai emitir a sua opinião, ou a opinião que lhe foi “imposta” pelas informações divulgadas na rede social e que acabou por assumir como “a verdade” do dia?

Apesar das boas intenções do Facebook, no combate a “esquemas”, torna-se claro que de uma forma ou outra, a rede social é um transporte de informação condicionante da forma de pensar podendo mesmo condicionar os resultados de uma eleição presidencial. Uma ferramenta perigosa, tal como assumido neste relatório, que não será polida apenas com um controlo em relação àquilo que o algoritmo irá considerar fora do normal.

Porque, seja qual for a informação que o algoritmo mostra aos utilizadores, nem este relatório coloca em causa, é um forte condicionador da sua forma de pensar. Os media tradicionais (mesmo aqueles que já assumiram estratégias online fortes) têm um papel preponderante no combate à disseminação da informação falsa pois, tal como se viu, por exemplo, no caso do jogo “Baleia Azul”, deram espaço, ajudaram a amplificar o tema, uma notícia falsa, sem confirmar juntos de fontes credíveis a veracidade dos factos.

O Faktual deixa estas perguntas em aberto para todos os que queiram participar na caixa de comentários. Porque este tema está longe de ter uma conclusão e há muitos factos por revelar.