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No discurso realizado na sessão de abertura do 4º Congresso dos Jornalistas, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, assegura que olha “com muita preocupação para a situação dos jornalistas”.

Para o Presidente da República, “a precariedade enfraquece a profissão e sem jornalismo estável e independente não há democracia sólida em Portugal”. 

As preocupações foram visíveis nos discursos de Marcelo Rebelo de Sousa mas também da presidente da organização, a jornalista Maria Flor Pedroso, do presidente da Casa da Imprensa, Goulart Machado, da presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco, e de Mário Zambujal, presidente do Clube dos Jornalistas. Os três organismos que, pela primeira vez, se uniram para levar adiante este congresso.

Nestes discursos, falou-se da precariedade da profissão, dos jornalistas que sobrevivem graças ao Rendimento Social de Inserção, da saúde dos próprios jornalistas.

Nunca cedam, nunca desesperem, nunca abdiquem dessa vossa missão

Na plateia, uma maioria esmagadora de jovens, muitos que ainda estão a terminar os cursos, outros tantos acabados de ingressar no mercado de trabalho. Em menor número, alguns históricos do jornalismo. Faltou a classe intermédia, aquela onde me incluo e que considero ser a geração que pode fazer a diferença.

Mas esses, ficaram de fora do congresso, por vontade própria, porque estão desiludidos, porque deixaram de acreditar.

Do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, vale a pena salientar esta afirmação: “O jornalismo só tem poder se nunca se vergar aos poderes políticos, económicos, financeiros e sociais, formais ou informais. Nunca cedam, nunca desesperem, nunca abdiquem dessa vossa missão”. Esta frase diz tudo sobre o estado da profissão.

O Presidente da República sabe bem que, atualmente, os jornalistas vivem no medo, na ameaça constante. Vêem um camarada ser esmagado, sem piedade, perante a inércia de Sindicatos ou qualquer outro organismo de jornalistas. Há anos que isto sucede nas redações. 

Todos se calam, porque cada um depende o seu rendimento mínimo para pagar as contas ao final do mês. No congresso, ouvem-se, e vão ouvir-se, discursos inflamados, de apelo a uma espécie de revolta, de criação de Conselhos de Redação, da presença do Sindicato nas redações. Não será desta forma que se chega lá.

Para quem parece esquecer-se, os diretores presidem aos conselhos de redação e têm um peso muito forte naquilo que é comunicado, no resultado assumido pelos membros eleitos para esse conselho.

Independência

Para seguir aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa defende, para que os jornalistas nunca se verguem perante os poderes instalados, é preciso assumirem nas suas mãos a profissão. Têm de ser empreendedores, apostar em projetos editoriais que não respondam a qualquer tipo de poder.

O Faktual nasce com esse objetivo e vontade de devolver a dignidade ao jornalismo. É um projeto colaborativo que precisa da união de uma classe dividida, empobrecida e sem vislumbre de uma solução. O modelo económico atual dificilmente irá registar lucros que permitam salários dignos, à altura da responsabilidade social que cada jornalista tem. Como consequência, cai-se no erro fácil de “responder” perante administrações que usam as hierarquias para, por uma lado, “controlar” a informação, por outro a exigir resultados rápidos.´

Com a queda do papel, a aposta no digital tem sido assente na estratégia daquilo que já defini anteriormente como a Era da Fobia do Clique (EFC). Não importa como, desde que muitos cliquem!

Pelo meio, ficam atropeladas a deontologia, isenção, os factos.

No final da sessão de abertura, Marcelo falou aos jornalistas. Em quatro minutos, nem uma pergunta sobre a profissão. Não é um julgamento, as perguntas tinham de ser feitas, mas esquecemo-nos daquilo que levou Marcelo ao Cinema São Jorge.

Faço esta aposta no Faktual porque acredito na dignidade da profissão que escolhi e porque, tal como relatou Maria Flor Pedroso, no seu discurso de abertura, os estudantes de jornalismo são vistos pela sociedade como aspirantes a contadores de mentiras. Definição que, como profissional recuso, mas percebo.

Esta crítica, que no panorama atual tem toda a razão de ser, também tem culpa na sociedade, nos leitores que se habituaram a consumir sem pagar. Exigem qualidade, mas querem notícias gratuitas. Também aqui, o Faktual pretende dar um passo em frente ao envolver a sociedade no financiamento do projeto. Através de doações, subscrições, acessíveis através do botão Paypal, na coluna da direita, e de uma campanha de crowdfunding que estará acessível em breve.

O objetivo será conseguir pagar aos jornalistas que colaborem com o Faktual, o valor justo pelo seu trabalho. A relação é clara. Não há pressa, há responsabilidade; não há redação, há a rua, onde o jornalista deve estar para obter informação; não há deadlines, há compromissos e profissionalismo.