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O 4º Congresso dos Jornalistas, que decorreu entre 12 e 15 de janeiro de 2017, surgiu com alguma surpresa (boa), 18 anos depois do último encontro, e numa altura em que, por todo o mundo, se fala de uma profissão à beira do abismo. Mas, no final deste congresso, a contrastar com o esforço e mérito de todos os que trabalharam para o realizar, está a falta de consensos.

A título de esclarecimento, sei que a profissão está a viver dias críticos. Que as verdades apresentadas no congresso dos jornalistas são factos vividos nas redações diariamente. Mas é por isso mesmo que defendo que isto só muda quando os jornalistas tiverem vontade de assumir a profissão nas suas mãos.

Certamente, muitos irão discordar desta visão mas vivemos num mundo onde a Liberdade permite expressar opiniões, principalmente quando estão assentes em factos. Se há coisa que falta na profissão, é um processo de comunicação eficaz com todos os jornalistas.

Muitos, porventura os mais desatentos, só souberam da existência do congresso dos jornalistas demasiado tarde. Tarde demais para poder participar nas reuniões preparatórias que existiram pelo país. 

Além disso, foi realizado um inquérito, com 1500 jornalistas, o qual, uma grande maioria, onde me incluo, desconhecia a sua existência. Não discuto, nem coloco em causa os resultados, mas gostava de ter participado, de dar o meu contributo. Afinal, somos mais de sete mil jornalistas, responderam 1600.

Afinal, posso afirmar com toda a certeza que sou o jornalista com mais anos focado no digital em Portugal e é para o digital que todos os caminhos apontam como solução.

Quatro factos sobre o congresso dos jornalistas

Facto 1 – Para este congresso, inscreveram-se apenas 600 jornalistas com carteira profissional e provisória, bem como estudantes de jornalismo. Participou quem quiz, ficou de fora quem acredita pouco numa solução para a profissão ou em soluções decididas em congresso.

Durante estes 4 dias, foi fácil perceber que a grande maioria das sessões tiveram na assistência uma classe etária bastante nova, maioria estudantes, a contrastar com alguns, em menor número, de mais antigos. Jornalistas que são uma referência e podem dar um contributo ao nível da memória e do ensinamento da profissão mas que, por questões óbvias, terão pouco contributo nas soluções técnicas para o futuro.

No entanto, de realçar, que no último dia, em especial na sessão dedicada a votação das propostas, o número de jornalistas, daquilo que se pode considerar a camada etária intermédia, subiu bastante.

Facto 2 – Pouca intervenção. Para uma sala repleta de jornalistas, houve poucos a pedir para intervir, para questionar os oradores durante as sessões, para levantar temas bastante relevantes para a discussão. E esta ausência de questões não se ficou a dever apenas à falta de tempo.

Uma das propostas votada e aprovada propõe o boicote às conferências de imprensa sem direito a perguntas. No entanto, seria bom realçar dois pontos: o primeiro está relacionado com a ausência de perguntas numa grande parte das conferências de imprensa que se realizam.

O segundo, o facto de, na última sessão, onde estiveram presentes os “patrões” dos grupos de media, não ter havido direito a perguntas da audiência. Eu, pelo menos, estava pronto a dirigir algumas questões aos convidados.

Facto 3 – Independência à medida. Existe demasiada força ao nível de um corporativismo interno onde só alguns se revêem. Talvez por isso uma grande parte, a maioria dos mais de sete mil profissionais com carteira, tivesse ficado de fora deste congresso dos jornalistas (e isto não é um facto, apenas uma constatação obtida através de uma sondagem junto de alguns dos ausentes).

O piloto pode levantar voo, colocar o avião em automático, sair da cabine para servir os passageiros, oferecer café, chá, laranjada. Mas para que tudo corra bem, sem incidentes, sem perder o rumo, e chegar a tempo e salvo, com os passageiros satisfeitos, é preciso que os astros estejam alinhados.

Será que a solução da precariedade está no aumento das competências de Conselhos de Redação (bastante importantes, quando funcionam de acordo com as regras); ou no aumento da presença do Sindicato dos Jornalistas nas Redações?

Quando, ao mesmo tempo, os jornalistas que defendem estes temas e exigem melhores salários (e bem) afirmam que nada têm a ver com os resultados e receitas da empresa?

Vamos por partes. Se a empresa tem grandes lucros e paga mal, os trabalhadores podem, e devem, exigir aumentos na compensação dos seus salários. O patrão que não o fizer, corre o risco de ver os lucros reduzir por falta de motivação. Por outro lado, se a empresa tem prejuízos ( e vamos deixar de lado neste contexto, as gestões danosas, que são outra discussão), como pode um patrão pagar os salários? 

A questão que se impunha aos patrões é: o que os motiva a manter as empresas de media, com os elevados prejuízos que registam?

Os jornalistas não podem ficar de fora desta discussão. Além disso, é preciso realçar a tentativa de um grupo de jornalistas presentes na sessão que antecedeu a palestra com os patrões, que, alegadamente, tentaram fazer de tudo para que essa sessão fosse cancelada.

A sessão, supostamente realizada depois das votações por não fazer parte do congresso dos jornalistas, começou com quase duas horas de atraso mas nenhum dos oradores desistiu, tal como realçou Francisco Pinto Balsemão.

Facto 4 – Tempo para fazer face às exigências das tecnologias. Foi de louvar aquilo que os estudantes de jornalismo, coordenados por alguns jornalistas fizeram e produziram durante o congresso. No entanto, provaram que é possível fazer aquilo que muitos jornalistas estiveram no congresso a lamentar.

Fico por estes quatro factos, um por cada congresso realizado até hoje. Porque, mais do que realizar um congresso, é preciso manter viva a necessidade de reafirmar, assumir o jornalismo. 

Multimedia

Se há algum jornalista em Portugal que pode, com toda a propriedade, falar sobre uma cobertura multimedia, serei eu. Já expliquei o meu percurso neste editorial.

No entanto, apesar de defender que um jornalista tem de saber mexer com as novas tecnologias, impõe-se a pergunta, uma das que gostava de ter colocado ao painel dos patrões: Estão mesmo à espera que todos os jornalistas consigam fazer tudo, da recolha de imagens de vídeo,  ao texto e fotografia com qualidade?

Posso fazer esse trabalho de recolha de vídeo, fotos, texto, mas a qualidade, na maior parte das vezes, fica abaixo daquilo que um bom reporter de imagem de televisão consegue fazer. Daquilo que eu próprio gostaria de apresentar.

Correndo o risco da falta de isenção por estar a defender em causa própria, posso dizer que o trabalho que tenho feito ao nível do digital – e considerando que apostei em formação específica em fotografia (realizada no Cenjor) – tenho conseguido alguma qualidade. Mas nem sempre é possível fazer tudo sozinho.

Este artigo é um exemplo de um trabalho multimedia, tanto o vídeo como a foto foram recolhidos com um telemóvel. Fiz por carolice, estava ali como congressista e não em trabalho de reportagem.

Apesar de ser um editorial, realço que tem foto, vídeo, texto e ainda um quiz no final. O som, apesar de apanhar muito ambiente, está melhor do que o recolhido pela RTP, que teve um problema técnico com o microfone (dei conta disso nessa noite, ao rever o telejornal). Na foto que ilustra o presente artigo, aquela mão, a segurar um telemóvel, é o que estava a captar as declarações de Marcelo.

É preciso ter em conta que há pessoas que, simplesmente, não têm jeito para fotografia ou vídeo. E não, apesar do Instagram e dos smartphones nos fazerem pensar isso, nem todos somos fotógrafos e aquela foto fantástica, cheia de filtros, que usamos orgulhosamente no Facebook, tecnicamente, não é uma foto com qualidade.

Vou completar a ideia com a imagem de um piloto de avião. O piloto pode levantar voo, colocar o avião em automático, sair da cabine para servir os passageiros, oferecer café, chá, laranjada. Mas para que tudo corra bem, sem incidentes, sem perder o rumo, e chegar a tempo e salvo, com os passageiros satisfeitos, é preciso que os astros estejam alinhados.

Ou seja, nem sempre é possível, e há que contar que, tal como foi afirmado no congresso dos jornalistas, o jornalismo é uma profissão de desgaste rápido, e nem sempre será possível aplicar este modelo do homem dos sete instrumentos como defendido por Rosa Cullell, CEO da Media Capital, TVI.

Como nota final, realço o facto de tantos oradores, jornalistas, diretores, terem identificado a falta que existe ao nível da investigação e análise jornalística. Essa é a base do Faktual, um site colaborativo onde os jornalistas, mesmo os que estão desempregados, podem encontrar forma de divulgar trabalhos com qualidade.

Acredito que os leitores vão reconhecer a qualidade e que em breve este projeto vai compensar o esforço de todos os que escrevem no Faktual. Mas, até lá, é preciso encontrar jornalistas empreendedores, que estejam interessados em assumir o rumo da profissão, não ter de “responder a patrões e hierarquias”, como muitos expuseram no congresso dos jornalistas, nem obrigatoriedade de passar o tempo sentados numa redação.

De realçar que esta é uma das conclusões do estudo apresentado no congresso dos jornalistas: “Os inquiridos indicam também a hierarquia como um condicionalismo, com 31,5% a assumirem ser pouco ou nada autónomos em relação às decisões das chefias e 41% pouco ou nada autónomos em relação às decisões das administrações”.

Os jornalistas que queiram escrever para o Faktual assumem um compromisso com a qualidade, isenção e devem usar o tempo de reportagem para estar onde estão as notícias, as informações: na rua, junto das pessoas!

E, como é óbvio, terão de pensar um pouco em resultados. Em como a qualidade das suas histórias vai motivar leitores a contribuir financeiramente para a manutenção do projeto, para a valorização das suas histórias, em atrair anunciantes que queiram estar associados a jornalismo sério, isento, produzido por profissionais credíveis.

Porque, respondendo à pergunta do título: Mesmo que todas as conclusões votadas, em alguns casos de forma emotiva, tal como a resolução final, sejam colocadas em prática, o congresso dos jornalistas não vai resolver, ou melhorar, os problemas da profissão! 

Poderá, eventualmente, ter servido para reacender alguma união da classe?