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António Costa é um mestre na comunicação política. Podem até dizer que este editorial começa sem grande novidade mas é difícil ter memória de assistir a um primeiro Ministro a conduzir uma entrevista, com um guião de perguntas que levam às respostas de forma magistral.

Além de todo o palco que o tema tem ocupado nas televisões nacionais, passando a imagem que o país está em total agonia e a viver uma espécie de guerra nuclear, o Governo apresenta-se de forma dramática nestes mais de 20 minutos de direto para passar a sua mensagem. Numa análise a frio, a primeira ideia que surge é a comparação com a comunicação do “Grande Líder Supremo” da Coreia do Norte onde toda a comunicação passada nas televisões dá a ideia que o mundo está em constante ameaça ao povo norte-coreano.

Portugal segue sereno, depois do pânico gerado pelo próprio Governo a incentivar ao açambarcamento de combustível e bens, mas há que manter a estratégia de comunicação como se um qualquer meteoro estivesse a aproximar-se da Terra.

A comunicação social acompanha estes momentos nesta altura do ano em que pouco se passa e aguarda-se por uma posição da ERC, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, sobre uma entrevista transmitida em direto e conduzida pelo Primeiro Ministro ao presidente da Entidade Nacional para o Sector Energético (ENSE).

Afinal, se a ERC se pronuncia sobre casos menos graves do que este e obriga até pequenos projetos a cumprirem com medidas que os levam a encerrar portas, deve ter a mesma exigência para com as televisões que transmitem a nível nacional e ocupam tanto tempo em propaganda política sem fazer o devido filtro que evite gerar o pânico na população.

Sinais de um país à beira do fim

Qualquer pessoa que acorde de um sono profundo, ou um estrangeiro que aterre em Portugal, olha para a televisão portuguesa e fica com a ideia que o país está em guerra. Vê imagens de reuniões das forças de segurança, o primeiro ministro em ambiente de video-conferência como se estivesse num exercício de crise e pensa: “vim para um país em guerra”.

O Governo continua a fazer este percurso de luta contra os camionistas, com o pretexto de estar a defender a população, quando os efeitos da greve ainda nem sequer se fazem sentir. Aliás, a greve só tem início para as 00h00 de segunda-feira, 12 de agosto, e o Governo lançou o apelo para que as pessoas corressem aos postos em julho.

Não está em causa o Governo tomar medidas que garantam a segurança da população ou sequer garantir que existam serviços mínimos e muito menos assegurar que existe combustível para áreas cruciais como emergência médica, bombeiros, polícia e outros setores cruciais para a população. Mas isto que está a suceder não tem ainda um nome para definir.

Aliás, qualquer cidadão de um país democrático pensava, até agora, que o Governo estaria sempre preparado para qualquer situação de emergência. Mas, perante este circo mediático, dá a ideia que só agora é que foram tomadas medidas e desenhadas estratégias de segurança. Não é assim. Estas medidas existem e sempre existiram e o Governo teria mais do que tempo para as colocar em prática se, e quando, fossem necessárias após o início da greve.

Aquilo que António Costa fez foi criar o pânico, dando cobertura à estratégia da ANTRAM. Depois, é sempre bom realçar numa análise destes factos, que apesar de ser possível e legal, um Sindicato que lança uma greve “por tempo indeterminado” está também ele a tomar posições extremas. Poderia fazer a greve com data marcada e, caso as coisas se mantivessem, marcar nova greve. É assim, de forma justa, que os sindicatos devem recorrer a este direito defendido pela Constituição.

Olhando para as declarações e posições extremistas do presidente do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas, Pardal Henriques, e do porta-voz da ANTRAM, André Matias de Almeida, (os rostos mais mediáticos deste confronto) pode pensar-se que estas duas figuras deveriam ser afastadas para permitir que as negociações voltem a ser possíveis de forma serena.

Até lá, vamos continuar a assistir a estes momentos televisivos, com o primeiro Ministro a conduzir entrevistas durante 20 minutos e ainda ter direito a repetir a mensagem na análise à entrevista que ele próprio conduziu.

E, a título de esclarecimento, o problema grave que António Costa quer fazer passar, e que preocupa de verdade a população, será a ausência dos serviços mínimos exigidos por lei. E, pelo que se sabe, os motoristas garantiram que os iriam cumprir. Estar, desde já, a lançar o pânico, ainda antes de haver incumprimento, é irresponsável e perigoso. O Governo deve estar preparado para garantir os serviços mínimos (e se não está sempre com um plano deste género em prontidão, deveria estar) em qualquer setor, mas aquilo a que se assiste vai muito além desta estratégica básica de segurança de um país democrático.

Aliás, de acordo com a Lei, serão os Sindicatos quem tem de garantir e assegurar estes serviços mínimos e não a empresas ou os patrões, tal como se está a assistir neste momento relativamente à ANTRAM, que já convocou os seus trabalhadores para estas funções.