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Em 1969, um cabeleireiro residente em Lourenço Marques (Moçambique) leu num jornal a notícia da sua própria morte. Trinta anos antes, uma freguesia minhota tinha proibido os viúvos de contraírem um novo matrimónio.

Imagine folhear um jornal e ler um artigo noticiando a sua morte. Como se sentiria? Jorge Alberto Lopes, um cabeleireiro natural de Alhandra (concelho de Vila Franca de Xira), sentiu «uma impressão estranha» quando, em Dezembro de 1969, leu a notícia do seu óbito num jornal. Mas logo concluiu, como referia O Século a edição de 16 de Dezembro de 1969, que «não podia andar morto a passear pelas ruas de Lourenço Marques, nem tão pouco estar a ler, no jornal, a notícia do óbito».

Jorge Alberto Lopes vivia, na época em Lourenço Marques, Moçambique, mas a mulher e os filhos residiam em Alhandra. De acordo com a tal notícia, que O Século não diz em que periódico foi publicada, o cabeleireiro teria morrido no hospital daquela cidade  depois de ter caído de um andaime.

Lá o bater das latas e tocar gaitas ainda se tolera. As pedradas não.

Como o próprio acabou por esclarecer, quem morrera na sequência de uma queda fora um colega seu, Cândido de Oliveira Ramos, de 43 anos de idade, natural de Vila Franca de Xira. Foi Jorge Alberto Lopes quem o transportou ao hospital, e aí terá começado a confusão com os nomes.

Sete meses mais tarde, o jornal O Século dava conta de um novo caso de um morto-vivo. Na tarde de 25 de Julho de 1970, é recebido na redacção daquele periódico um telefonema deveras… curioso: «Está? Daqui fala Mário Carolino Araújo Trindade, a pessoa dada como morta numa notícia que o vosso jornal hoje publicou! Pode fazer o favor de tomar nota de que estou vivo e que, portanto, desminto essa informação que me está a causar certos transtornos… Calcule que estão a chegar alguns parentes, residentes na província, e que muito chorosos vinham assistir ao meu funeral. E como tenho pessoas que vivem nos Estados Unidos (e um dele é, até, assinante de O Século) receio que venham a tomar conhecimento do caso, e a impressionar-se com a minha morte inventada!»

A referida notícia dava conta do aparecimento de um cadáver num terreno próximo à  Central Automática dos Telefones na estrada da Rebelva, concelho de Cascais. A informação recolhida pel’O Século indicava que o corpo era de Mário Carolino de Araújo Trindade, de 51 anos de idade, residente nos arredores de Cascais. No entanto, o morto era Manuel Alves Ferreira, um viúvo de 59 anos de idade, que morava em Rebelva.

Os dois homens eram compadres. Mário Trindade tinha emprestado o seu carro, com os respectivos documentos, a Manuel Ferreira, que não tinha consigo qualquer documento de identificação no momento em que morreu. Daí, a troca de nomes na notícia.

Quando o povo manda

Seguindo à letra o mandamento da Igreja Católica de que o casamento é para a vida toda, o povo de Seixas do Minho, no concelho de Caminha, decidiu que os viúvos da terra não podiam contrair um novo matrimónio. Se algum deles ousasse fazê-lo, logo saíam à rua umas dezenas de habitantes da aldeia «com os instrumentos mais extravagantes» e «fazendo uma barulheira infernal, especialmente junto das residências dos que se presumia quererem passar a segundas núpcias». 

Isto nos conta o Diário de Notícias de 5 de Dezembro de 1938 numa altura em que quatro viúvas e viúvos pretendiam voltar a casar. Tendo o povo sabido disso, logo 50 indivíduos de Seixas do Minho se reuniram e percorreram as ruas da aldeia fazendo um barulho ensurdecedor. Uma mulher ficou ferida num sobrolho depois de alguém lhe ter atirado uma pedra.

Segundo o Diário de Notícias, ninguém sabia explicar o porquê daquela proibição. «Há costumeiras que não têm explicação fácil», escrevia o repórter, acrescentando: «[…] Não seria mau que as autoridades interviessem. Lá o bater das latas e tocar gaitas ainda se tolera. As pedradas não. A brincadeira passa a estupidez.»