4 minutos leitura

Radicado no Brasil há 14 anos, sem nunca escrever à mulher e às filhas, João Gonçalves decidiu inventar uma falsa família para poder sustentar o vício da bebida.

Quando o desespero é grande, a imaginação é fértil. Pelo menos, é o que podemos deduzir da estória desta semana, que nos chegou pelo jornal O Século de 13 de Dezembro de 1938. Como tantos compatriotas na época, João Gonçalves emigrou para o Brasil à procura de uma vida melhor. Em Portugal, deixou a mulher, Conceição de Jesus, e duas filhas, Maria Domingas e Rosa. Instalou-se no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, e por lá viveu 14 anos sem nunca escrever uma linha à família. Durante quase década e meia, não souberam se era vivo ou morto, se tinha prosperado ou continuava na pobreza.

À semelhança de outros Portugueses também emigrados, João Gonçalves trabalhou em vários locais até se estabilizar como hortelão na Escola Quinze de Novembro. Mas segundo aquele diário, o que ganhava não era suficiente para o vício da cachaça de Paraty, que entretanto adquirira. E sem a dose diária dessa forte aguardente, o dia já não corria de feição, pelo que era necessário arranjar uma maneira de resolver o problema, e rapidamente. 

Lembrou-se, então, de pedir esmola. Mas como ninguém iria dar-lhe uma moeda que fosse para alimentar o vício, decidiu inventar uma família. Um certo dia, entrou na estação de Nilópolis, e desatou a chorar, fingindo-se muito aflito. Logo uma multidão o rodeou, perguntando-lhe o que se passava para estar naquele estado. A todos respondeu: “Sou um desgraçado! Mal ganho para comer e a minha mulher acaba de dar à luz um par de gémeos! Que vai ser da minha vida?” 

Solidárias, várias pessoas deram-lhe dinheiro e indicaram-lhe um médico que poderia ajudá-lo. João Gonçalves agradeceu. Escusado será dizer que assim que se viu sozinho, o estado de tristeza profunda logo deu lugar a uma alegria desmedida. E nessa noite pôde saciar o vício, enquanto cantava a plenos pulmões: “Que felicidade é ter filhos!”.

Não há mal que sempre dure….

Na semana seguinte, quando o dinheiro voltou a apertar, João Gonçalves instalou-se numa rua bastante movimentada e desempenhou o mesmo papel de pai angustiado. Desta vez, tinham-lhe nascido três gémeos. Quem passava, não ficou indiferente ao drama e foi deixando algumas moedas e notas, que o português gastou, claro está, em aguardente.

De tão contente com o esquema, voltou a recorrer a ele pouco tempo depois. Sentou-se numa pedra numa das ruas de Bangu e lamentou-se de não ter como sustentar a mulher e os quatro gémeos – dois rapazes e duas raparigas – que esta tinha acabado de dar à luz. Para que se condoessem ainda mais dele, dizia que a mulher estava quase a morrer, que tinha pedido a uns vizinhos que a transportassem, e aos bebés, num lençol até ali, mas que não tinha dinheiro para a levar ao médico.

Seriamente preocupado com o drama do casal, um homem telefona para o Hospital Hermes da Fonseca a pedir ajuda. De imediato saiu uma ambulância com enfermeiras, um médico e dois maqueiros. No local onde João Gonçalves se encontrava montaram um pequeno posto de socorros pronto a receber a pobre mulher moribunda.

Enquanto isso, ajudado por alguns dos muitos populares que entretanto se juntaram, o emigrante foi ao Registo Civil anunciar o nascimento dos quatro gémeos. Depois, seguiu ao encontro dos vizinhos que deveriam transportar a mulher e os filhos no lençol, desculpou-se, e aproveitou para fugir. A situação tinha-lhe fugido ao controlo e João Gonçalves não queria ser apanhado por uma multidão furiosa.

Mas como diz o ditado popular, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Com o passar das horas, e sem que nem mulher nem gémeos aparecessem, a Polícia concluiu estar perante um logro, e deu-lhe caça. João Gonçalves foi preso e levado para a esquadra, onde tudo confessou. Em sua defessa, disse: “Que há nisto de extraordinário? Se eu dissesse que queria beber, todos me corriam com a sorte. Assim, falando nos gémeos, não faltava quem se chegasse para mim… De resto, os gémeos não nasceram, mas podiam muito bem ter nascido!”