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No início do século XX, um pároco de Guimarães decidiu abandonar o sacerdócio para se casar. Mas acabou por se arrepender e pediu para voltar à Igreja Católica.

Há muito que o tema do celibato dos sacerdotes é discutido no seio da Igreja Católica e da comunidade católica em geral, surgindo regularmente nas páginas dos jornais. O assunto assume especial relevância sempre que são conhecidos casos de padres com filhos. Alguns acabam por deixar o sacerdócio; outros, continuam a exercer o ministério, embora assumindo a paternidade das crianças. No início do século XX, um pároco português conseguiu contornar essa proibição, determinada em 1059 pelo Sínodo de Latrão. Casou, teve uma filha e regressou à Igreja como se nada se tivesse passado.

Sebastião Luís de Araújo Gomes, padre em Guimarães, enamorou-se certo dia por uma jovem oriunda de uma família monárquica muito conceituada do Porto. Consciente de que a relação estava desde logo condenada ao fracasso, decidiu raptar a sua apaixonada para viver esse amor. 

O caso gerou um grande escândalo na sociedade e um enorme desgosto na família da rapariga. Tanto mais que o sacerdote tinha já má fama. De acordo com o jornal O Comércio do Minho, que revela a polémica na sua edição de 9 de Junho de 1909, o padre de Guimarães “pedia dinheiro emprestado a toda a gente… e ficou a dever dinheiro a toda a gente que lho emprestou”.

Desta vez, Sebastião Luís de Araújo Gomes parecia disposto a assumir as suas responsabilidades. Abandonou o sacerdócio, casou pelo Registo Civil e arranjou um emprego no Porto. Do casamento, nasceu uma filha. Mas diz o ditado popular que “Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Parece ser esse o caso o antigo padre, que foi despedido por desvio de dinheiro. Para sustentar a família a partir de então, empenhava “objectos alheios” e gastava “o dinheiro que aos outros custava a ganhar”. Até que se cansou da vida que levava e decidiu voltar a dizer missas e a pregar sermões.

Tomada a decisão, abandonou a mulher e a filha e requereu às autoridades eclesiásticas licença para regressar ao sacerdócio. O pedido foi aceite, e depois de se retratar publicamente no jornal A Palavra e de passar um mês em “exercícios espirituais”, Sebastião Luís de Araújo Gomes voltou a ser padre, desta vez na freguesia de Oura, uma “das mais rendosas” concelho de Chaves. Para convencer a hierarquia da Igreja Católica, utilizou um argumento legal: os casamentos civis não eram reconhecidos pelo Vaticano e, por isso, à luz do direito canónico, nunca tinha estado casado.

Arrependido e aliviado

No texto que publicou na edição de 20 de Junho de 1909 do jornal A Palavra, e que a seguir transcrevermos, o padre assume-se arrependido e ao mesmo tempo aliviado:

Declaração

Dois anos de vicissitudes tantas e tão várias, passados numa vida sempre acossada de amarguradas lutas, em que me envolveram contínuos desvarios, não lograram, felizmente dissipar o incomparável património da minha fé religiosa. É que na última derrocada de todas as ilusões, mercê de Deus a crença sempre surge majestosa e fulgurante no meio deste sombrio deserto da alma, mostrando ser o único lenitivo que conforta, o único fanal divino que norteia a senda do dever, quando corremos vertiginosamente pelos atalhos tortuosos do mundo, que levam a negros abismos. Infelizmente nestes me precipitei; e, só então, para mim se abriu um novo mundo – um mundo de desenganos, que deu brilho e vigor ao frouxo olhar da minha fé. Os fulgores desta crença, acrisolada ao fogo de acerbíssimas mágoas, iluminam-me agora os escuros caminhos que pisei. Quero, devo e posso, com o auxílio de Deus, retroceder. Ao passado, pois, que me horroriza, volvo um olhar de desprezo, renunciando com reflexão e firmeza a essa vida dissipada, que me abriu o coração a todas as seduções, e o entregou, indefeso, ao espírito do mal. Para a maternal igreja santa de Jesus dirijo olhares de saudade, de arrependimento, por dela me haver separado, prometendo na minha qualidade de padre e de crente, submissão à autoridade que a hierarquia eclesiástica exerce sobre seus súbditos e testemunhando os mais leais e veementes protestos de arrependimento e de adesão à disciplina da igreja. É com imenso alívio e satisfação da minha consciência que eu consigno esta confissão sincera, com a qual espero desfazer qualquer má impressão que o meu procedimento passado haja levado ao coração dos crentes”.

Depois de este caso ter vindo a público, a Imprensa republicana multiplicou-se na denuncia de outros padres “que renegaram, casaram civilmente, e voltaram a ser padres”. Tendo em conta que a Igreja Católica se opunha terminantemente ao casamento civil, estes casos eram considerados um desrespeito às leis do Estado por parte das autoridades eclesiásticas. 

“Se os padres não podem casar, segundo as leis canónicas, é uma imoralidade sem limites que se reconheçam como tais aqueles que deixaram de o ser para casar, civilmente embora”, criticava o jornal O Mundo na edição de 8 de Setembro de 1909.

Às mulheres e filhos abandonados restava-lhes interpor em tribunal uma acção de separação e um pedido de pensão de alimentos. Porém, tendo em conta os custos associados a um processo judicial, a maioria acabava por não apresentar queixa.