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No início do século XX, morreu uma das figuras mais castiças da Costa de Caparica. Bernardo Galligan era um americano «doido» que vivia isolado num convento.

No dia 1 de Novembro de 1901, Dia de Finados, morria o monge da Caparica, uma das figuras mais carismáticas da Costa de Caparica, em Almada: Bernardo Galligan. Natural dos Estados Unidos da América (onde deixara dois irmãos), não era verdadeiramente um monge, mas um «doido, que uma alcunha um tanto milagreira aponta à curiosidade pública», como o descrevia O Século na edição de 20 de Outubro desse ano. Era «alto, corpulento», tinha barba e bigode compridos, vestia sempre de preto e fumava cachimbo.

Vivia numa das duas celas de um convento que tinha sido contruído pelo padre inglês Henrique Huge no último quartel do século XIX. O seu quarto tinha quatro metros de comprimento por três de largura, e estava mobilado apenas com uma «cama de ferro, estreita, um lavatório, uma cómoda, uma mala e um banco». Costumava assistir à missa na igreja da Costa de Caparica, a cerca de 60 metros do convento, mas devido à curiosidade de que era alvo, tinha deixado de ir há muito tempo.

O padre inglês Henrique Huge tinha-se instalado em Portugal nos anos 60 do século XIX. Primeiro, viveu no Convento do Vale Rosado, no Monte de Caparica. Depois, por motivos desconhecidos, mudou-se para a Costa de Caparica, onde vivia «miserrimamente das sobras que os outros lhe davam». A pouca fortuna que possuía, tinha-a distribuído pela família e pelos pobres, e uma pequena parte tinha utilizado para construir o seu próprio convento.

Era considerada uma pessoa «humilde», que «pregava a concórdia» e a «bem-aventurança», e que por isso se soube impor numa comunidade de «gente rude», como era a dos pescadores. Mesmo vivendo na pobreza, não hesitava em despir «as suas próprias vestes para agasalhar os nus».

Como escrevia o redactor de O Século na edição de 20 de Outubro de 1901, o padre inglês «foi pai, foi juiz, foi conselheiro, foi medianeiro nas discórdias, foi confessor. […] O pescador, quando regressava da sua pesca, repartia-a com ele; para as mulheres era um Deus; para as crianças um amigo».

A cada dois dias, Henrique Huge ia a Lisboa ajoelhar-se diante da imagem do Senhor dos Passos, na Graça. Também pregava regularmente na igreja de São Paulo. Chegou a ir também à Senhora do Cabo, no Cabo Espichel (Sesimbra), «a pé, descalço, vergado ao peso de dois alforges de comida».

A conversão

A sua fama rapidamente se espalhou. Tal força tinham as suas palavras e os seus gestos, que o padre inglês conseguiu converter algumas almas. Como a do brasileiro João Inácio da Costa, mais conhecido por O Alfama, que «não acreditava em Deus, porque o nunca tinha visto». Mas pouco tempo depois de ter conhecido Henrique Huge, O Alfama «fez-se miserável; despiu ostentações, desdenhou prazeres».

Durante 14 anos, o padre inglês viveu num convento que ele próprio fundou, e que nunca chegou a ser acabado (apenas foi construída uma das faces com dois torreões). Da sua congregação faziam parte sete frades recrutados no seio da comunidade piscatória. Ali, funcionava também uma escola para os filhos dos pescadores, que eram ensinados pelo professor primário Francisco Calderón.

Certo dia, Henrique Huge foi a Lisboa tentar arranjar dinheiro para acabar o convento e nunca mais voltou. Na Costa de Caparica correu a notícia de que tinha morrido. A verdade, porém, era outra. O padre tinha sido obrigado a regressar a Inglaterra depois de o terem acusado de ser jesuíta, e lá viveu o resto dos seus dias.  

Desde então, o convento e a escola ficaram a cargo padre Russel, chefe da congregação dos irlandeses do Corpo Santo, que continuou a sua obra. Em cada um dos torreões existia uma cela, e era numa dessas celas que vivia o monge da Caparica.

Em meados de Outubro de 1901, Bernardo Galligan adoeceu gravemente, baixando à cama. Tinha 49 anos de idade. Foi observador por um médico, mas o seu estado foi piorando de dia para dia, e acabou por não resistir. Na véspera da sua morte, foi-lhe dada a extrema-unção pelo padre Russel, que o acompanhou desde o início da enfermidade.

O funeral desta «pobre criatura excêntrica», que se revestiu «de uma grande modéstia», realizou-se no dia seguinte a expensas dos padres da congregação irlandesa do Corpo Santo. Na cerimónia participaram muitas pessoas residentes na Costa de Caparica e dos arredores, segundo O Século de 3 de Novembro. O corpo do americano ficou sepultado no cemitério local, e a cela onde morreu passou a ser palco de uma verdadeira romaria por parte de inúmeros curiosos.