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Em Agosto de 1968, o aparecimento do cadáver de um homem junto a uma adega localizada na estrada que liga Arruda dos Vinhos a Sobral de Monte Agraço revelou-se um verdadeiro quebra-cabeças para a Polícia.

O aparecimento do cadáver de um homem sentado à porta de uma adega situada na estrada que liga Arruda dos Vinhos a Sobral de Monte Agraço revelou-se um verdadeiro quebra-cabeça para as autoridades policiais durante uma semana. Sobretudo porque, durante a investigação, perceberam que, antes, o corpo tinha estado encostado a uma árvore junto da qual havia sinais de travagem. Como teria sido possível o cadáver deslocar-se?

A macabra descoberta foi feita pelo agricultor Inácio Luís Louro, que passou no local pelas 5.35 horas do dia 29 de Agosto de 1968. Ao verificar que o homem – Francisco Gama Freixo, de 29 anos de idade, trabalhador rural – estava morto, contactou o posto da GNR de Sobral de Monte Agraço, de acordo com o Diário de Notícias de 31 de Agosto. O corpo foi então removido para a casa mortuária, onde se realizou a autópsia. 

Os médicos legistas verificaram que o cadáver tinha seis costelas partidas do lado direito, perfurações no fígado e no abdómen, dois golpes no alto da cabeça e as mãos arranhadas. Concluíram, por isso, que o homem teria sido vítima de atropelamento.

Junto à porta da adega havia sinais de travagem brusca, o que ajudava a sustentar esta tese. No entanto, ainda segundo o Diário de Notícias, durante a investigação surgiram algumas dúvidas. Um acidente deveria ter causado fracturas nas pernas ou nos braços da vítima, o que não se verificava. Também não se percebia a origem do ferimento na cabeça e nas mãos. Teria a vítima sido agredida e não atropelada?

Interrogados pelas autoridades policiais, trabalhadores de uma fábrica local contaram ter visto, na noite anterior, uma furgoneta azulada, de caixa aberta, a travar abruptamente naquela zona e a desviar-se para uma estrada à direita, aos ziguezagues. Ganhava, assim, força a tese do atropelamento.

DN ajuda nas investigações

No carro do Diário de Notícias, o comandante do posto da GNR de Arruda dos Vinhos e o chefe da Polícia de Viação e Trânsito do Carregado deslocaram-se pelos arredores para inspeccionar todos os veículos com as características descritas pelas testemunhas. As informações recolhidas foram transmitidas à Polícia Judiciária, que assumiu, a partir de então, a liderança da investigação.

Dois dias depois, o caso seria deslindado: o corpo não foi removido, mas foi a própria vítima a arrastar-se até à porta da adega, onde acabou por morrer devido à gravidade dos ferimentos. Ao ser atingido de raspão pela furgoneta, o trabalhador rural caiu de costas sobre uma «pedra aguçada onde lhe foram encontrados os pedaços de bacalhau que lhe pertenciam». Foi assim que fracturou as costelas, perfurou o fígado e o abdómen, e feriu a cabeça. 

O condutor, ao aperceber-se do sucedido, arrastou o corpo até debaixo de uma árvore próxima, e ali o abandonou, deixando o local com as luzes da furgoneta apagadas para não ser notado. Mas Francisco Gama Freixo não estava morto. Apesar de gravemente ferido, conseguiu arrastar-se até à porta da adega – «certamente, no intuito de procurar socorro» – onde acabaria por sucumbir, avança o Diário de Notícias de 6 de Setembro.

Confissão

As perícias realizadas pelo Laboratório Científico da PJ fortaleceram os relatos dos operários fabris. O condutor da furgoneta, o comerciante António Louro da Costa, de 54 anos de idade, foi, entretanto, identificado. Perante as fortes provas apresentadas, acabou por confessar ter embatido em alguém com a sua furgoneta, mas que não se tinha lembrado «de parar para inquirir o que tinha sucedido na verdade». Quando chegou a casa, inspecionou o veículo, mas não tendo encontrado vestígios de sangue, concluiu que, afinal, não tinha batido em ninguém.

No dia seguinte, ao ouvir a notícia de que tinha aparecido um homem morto à porta da adega, percebeu que, afinal, tinha mesmo atropelado uma pessoa. Contou à mulher ao sucedido, pensou ir à GNR contar tudo, mas faltou-lhe a coragem. De nada serviu. Uma semana depois, foi identificado pela Polícia Judiciária e detido, acusado do crime de homicídio.