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Em Outubro de 1909, os empregados da estação de Campanhã descobriram um caixão de chumbo dentro de uma encomenda que deveria conter… carne salgada 

Os empregados da estação ferroviária de Campanhã, no Porto, não devem ter ganhado para o susto quando, ao abrirem uma caixa que deveria conter carne salgada, se depararam com um caixão chumbado. A macabra descoberta aconteceu em Outubro de 1909, e rapidamente a notícia se espalhou pela cidade e chegou às páginas dos jornais.

Dizia-se à boca pequena que o caixão continha o corpo de uma mulher “cortada aos bocados”, contava o diário O Século na sua edição do dia 12. O Jornal de Notícias recordava, no mesmo dia, o famoso homicídio de um procurador francês em casa de uma cocotte de Paris. O magistrado tinha sido morto por um amante daquela, e o seu corpo amarrado, metido dentro de uma mala e despachado por comboio.

No caso português, a encomenda tinha sido expedida por José do Amaral Semblano no dia 6 de Junho na estação ferroviária de Ovar e destinava-se a Paulino Rodrigues, um negociante da cidade brasileira de Pelotas que se encontrava em Portugal com a mulher e a filha. Quatro dias depois, como não tinha ainda sido levantada, e uma vez que se tratava – segundo a documentação – de carne salgada, os empregados da estação decidiram abrir a caixa para verificarem se a mesma estava bem-acondicionada. Contudo, em vez de carne salgada, encontraram um caixão de chumbo.

Contactadas as autoridades judiciárias e sanitárias, a estranha encomenda foi encaminhada para o cemitério de Agramonte, onde os subdelegados de Saúde Eduardo de Souza e Ferreira Mendes e o chefe da 2.ª secção da Polícia Judiciária, Manuel Carvalho, se inteiraram do caso. Estando todos os documentos em ordem, segundo O Século, decidiram que o caixão fosse entregue ao destinatário sem ser aberto, e notificaram Paulino Rodrigues a comparecer, no dia seguinte, no Comissariado Geral de Polícia do Porto.

Por uma questão de preço

Paulino Rodrigues contou, então, aos inspectores que tinha chegado há pouco tempo do Brasil. Antes da sua partida, a viúva do empresário Manuel Lourenço da Silva (natural de Gandra, no concelho de Oliveira de Azeméis) pedira-lhe que tratasse da trasladação do cadáver do marido para a cidade brasileira de Pelotas, onde ela vivia. O capitalista tinha morrido repentinamente, aos 40 anos de idade, no Hotel Francfort, em Lisboa, em Junho de 1906, e sido sepultado no jazigo de família do cemitério da sua terra natal.

Chegado a Portugal, Paulino Rodrigues deu início ao processo de exumação e trasladação do corpo, tendo gastado 145$125 réis. O cadáver foi encerrado num caixão de chumbo e transportado num carro de bois de Couto de Cucujães (concelho de Oliveira de Azeméis) para a estação ferroviária de Ovar acompanhado do procurador judicial da comarca, José de Amaral Semblano.  Uma vez na estação, o condutor da carroça decidiu despachar o cadáver como sendo carne salgada, por ser mais barato, segundo lhe tinham explicado. Em vez de 25$000 réis, o carreteiro pagou apenas 1$800 réis.

Desfeito o mistério, esclarecidas todas as dúvidas e com a documentação em ordem, o cadáver do empresário Manuel Lourenço da Silva foi, finalmente, despachado para o Brasil no dia 12 de Junho a bordo de um vapor da Companhia Hamburgueza. 

Quanto ao carreteiro, foi investigado pelas autoridades policiais, que queriam perceber se a decisão tinha sido inteiramente sua ou se tinha sido instigado por alguém. Afinal, o seu acto constituía “um desrespeito para com o cadáver”, um crime punido, à luz do §2.º do artigo 247 do Código Penal, com um ano de prisão correcional. Porém, não há notícia do desfecho da investigação.