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Na década de 1930, António Bento, natural de Mértola, aproveitou um internamento em Lisboa para anunciar à família a sua morte e pedir dinheiro para o funeral.

A estória desta semana tem contornos kafkianos: como se sentiria se ao conversar com um desconhecido concluísse que ele era, afinal, um irmão seu que tinha morrido há três décadas? Foi assim que se sentiu Manuel Bento, de 62 anos de idade, quando, em Janeiro de 1965, percebeu que o homem que lhe estava a pedir trabalho era, nada mais nada menos, o seu irmão António, que a família julgava ter morrido em Lisboa nos anos 30.

O estranho caso foi noticiado nas edições de 2 e 3 de Julho de 1965 do jornal O Século. António Bento nascera no dia 8 de Fevereiro de 1910 em Corte do Gafo de Baixo, no concelho de Mértola. Era filho de José Bento e de Luísa Maria, que tiveram mais dois filhos e uma filha. Com cerca de 30 anos, por alegadamente estar tuberculoso, foi internado num hospital em Lisboa. Cerca de um mês e meio depois, os familiares receberam uma carta informando-os que António Bento tinha morrido e que deveriam enviar 400$00 para as despesas do funeral. Assim fizeram, e nunca mais pensaram no assunto. Até Janeiro de 1965.

Num dia igual a tantos outros, estava Manuel Bento (irmão mais velho de António) no seu posto de trabalho (era encarregado de uma obra em Oeiras) quando lhe apareceu um homem a pedir trabalho. Pediu-lhe para regressar no dia seguinte, e assim aconteceu. Tudo decorria normalmente, até António ter perguntado a Manuel de onde era natural:

            «- Vocemecê é do Alentejo?

            – Pois sou. E vossemecê também…

            – Sou da Corte do Gafo…

            – De Baixo ou de Cima?

            – De Baixo.

            – Também eu. A que família pertence vossemecê…?

            – Sou filho do José Bento e da Luísa Maria.

            – Homem, não pode ser. Então era meu irmão e eu já tive um, mas morreu.

            – Não morreu nada, sou eu.»

«Sou patrão de mim mesmo»

Manuel Bento desconfiou da história, mas nas várias conversas que mantiveram nos dias seguintes, os pormenores sobre o passado da família «batiam certinho». Decidiu contar o sucedido ao outro seu irmão, José Luís Bento, residente em Tires. Jantaram os três, e a história contada por António Bento (que agora se chamava António dos Santos) continuava a bater certo. Intrigado, José Luís Bento dirigiu-se ao Registo Civil e aí comprovou que não havia qualquer certidão de óbito em nome do irmão António.

Apesar da insistência do jornalista de O Século, António Bento não quis explicar por que motivo forjou a sua morte nem entrar em pormenores sobre o que foi a sua vida desde então. Contou que viveu onde encontrou trabalho, de Norte a Sul de Portugal, que tanto comia bem como passava fome, que dormia em camas decentes ou ao relento. «Trabalho para os outros, mas sou patrão de mim mesmo», dizia, acrescentando que não tinha de «dar satisfações a ninguém».

Foi o irmão Manuel quem trouxe alguma luz a este mistério. Segundo ele, António «não gostava muito da mãe» por esta querer casar a filha com um homem com quem ele não simpatizava. Também não morria de amores por uma tia materna, que disse «ter nojo dele» quando ele adoeceu.

O seu internamento em Lisboa não se deveu à tuberculose, mas a uma «grande queda» que deu quando fazia contrabando para Espanha. Uma vez na capital, e já recuperado, pediu à mulher de um capitão seu conhecido que escrevesse à família a anunciar a sua morte e a pedir dinheiro para o funeral. Mudou de nome e nunca mais contactou com os familiares. Até ao dia em que por mero acaso foi pedir trabalho ao irmão mais velho.