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Maria Alcide Fernandes de Figueiredo foi obrigada a viver no Hospital Sobral Cid, em Coimbra, entre 1952 e 1957 por causa de um sobrinho ganancioso

Solteira e sem filhos, Maria Alcide Fernandes de Figueiredo decidiu doar alguns dos seus bens a Mário Dias de Figueiredo, seu sobrinho e afilhado, mantendo-se usufrutuária dos mesmos até à sua morte. Estávamos a 13 de Abril de 1950, e a rica proprietária, residente na freguesia de Eixo, no concelho de Aveiro, procedia, assim, à partilha, em vida, de uma parte da sua fortuna.

A decisão, contudo, não agradou a um outro sobrinho, Aristides Dias Fernandes de Figueiredo, que intentou contra ela uma acção de interdição por demência, conta-nos o jornal O Século de 8 de Maio de 1958. Em sua defesa, o advogado Castanheira Lobo apresentou atestados médicos dos psiquiatras Egas Moniz, Américo de Assunção e Manuel de Almeida, que confirmavam estar ela na posse de todas as suas faculdades mentais. 

Mesmo assim, o juiz do 8.º Juiz Cível de Lisboa sujeitou-a a exames nos Hospital Júlio de Matos, que concluíram não ter a examinada doença mental. Maria Alcide tinha, pois, «capacidade para reger a sua pessoa e bens» como bem lhe aprouvesse. Regressou, por isso, descansada a sua casa, no Eixo, e retomou a normalidade na sua vida. 

O caso, porém, não estava ainda encerrado. Inconformado, Aristides Dias Fernandes de Figueiredo apresentou um novo requerimento em tribunal. Na sequência desta acção judicial, Maria Alcide foi conduzida, sob custódia, ao Hospital Sobral Cid, em Coimbra, no dia 30 de Março de 1952, para ser submetida a novos exames psiquiátricos. Exames esse que foram realizados apenas em 8 de Fevereiro de 1956. Durante quase quatro anos, Maria Alcide viveu no manicómio, entre verdadeiros doentes mentais, e privada do convívio de familiares e amigos.

Os exames aqui realizados revelaram que a rica proprietária estava demente e, por isso, não podia administrar os seus bens livremente. O corregedor da 2.ª Vara Cível de Lisboa, Moura Rodrigues, não se conformou com a conclusão, e decidiu intervir no processo. Maria Alcide recuperaria, finalmente, a liberdade em 1957 por ordem deste magistrado, ordem essa confirmada por um acórdão do Tribunal da Relação assinado pelos desembargadores Pinheiro de Almeida, Anselmo Taborda e Alberto Toscano. Agora, sim, podia dispor da sua pessoa e dos seus bens como bem entendesse.

Como conclui o jornal O Século na edição de 12 de Maio de 1958: Se a justiça não surgisse a fazer valer a sua autoridade, se não tivessem aparecido juízes que soubessem sobrepor a sua são faculdade de julgar a tudo o que de subterrâneo e de suspeito deve ter intervindo para que este criminoso sequestro se prolongasse tanto, a suposta louca continuaria a aguardar que a submetessem aos exames requeridos pela sua situação por tempos infindos».